SAÚDE
Dor abdominal que não passa pode virar cirurgia de emergência
Doenças do aparelho digestivo estão entre as principais causas de internação no Brasil
Quase 400 mil internações por cálculos na vesícula foram registradas pelo Sistema de Informações Hospitalares do SUS em 2024. O número chama atenção, mas o que mais surpreende os especialistas é o que está por trás dele: uma parcela expressiva dessas hospitalizações ocorre em caráter de urgência, depois que o paciente ignorou meses ou até anos de sinais que o próprio organismo já estava enviando.
Azia frequente, dor no alto do abdômen após refeições gordurosas, desconforto que vai e volta sem explicação aparente. Individualmente, cada um desses sintomas parece banal. Juntos, e mantidos por tempo suficiente, podem indicar doenças que têm tratamento eficaz quando identificadas cedo, mas que se tornam casos cirúrgicos complicados quando a avaliação demora.
O Brasil tem estrutura para diagnosticar e tratar as principais doenças digestivas. O problema não é falta de recurso: é falta de reconhecimento dos sinais. E no Nordeste, onde a atenção básica ainda acumula demanda reprimida de anos, esse intervalo entre o primeiro sintoma e a primeira consulta tende a ser mais longo.
O sistema digestivo é grande e seus problemas são variados
O aparelho digestivo vai do esôfago até o ânus, passando por estômago, intestino delgado, intestino grosso, fígado, vesícula biliar e pâncreas. São órgãos com funções distintas, mas que se comunicam o tempo todo. Por isso, um problema em uma parte pode gerar sintomas que parecem vir de outro lugar.
"Refluxo gastroesofágico, cálculos biliares, hérnias abdominais, doenças inflamatórias intestinais e tumores do trato digestivo compõem o grupo das condições que mais levam pacientes a cirurgias no Brasil. Cada uma tem características próprias, mas compartilham um problema comum: sintomas que aparecem cedo e costumam ser tolerados sem avaliação médica adequada", esclarece Dr. Thiago Tredicci, gastrocirurgião com atuação em Goiânia.
Segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Coloproctologia com base em dados do SIH/SUS, as internações por doenças inflamatórias intestinais cresceram 61% entre 2015 e 2024, chegando a quase 24 mil hospitalizações no último ano.
O dado reflete tanto o aumento real de casos quanto a melhora no diagnóstico, mas também aponta para um sistema que frequentemente chega tarde à condução clínica dessas condições.
Câncer colorretal: o terceiro mais comum e ainda pouco rastreado
Entre as doenças digestivas, o câncer colorretal merece atenção especial. O Instituto Nacional do Câncer estima 45.630 novos casos por ano no país. É o terceiro tipo de câncer mais frequente no Brasil e também um dos que mais mata: em 2020, 20.245 pessoas morreram em decorrência da doença.
O dado mais relevante, porém, é outro: quando diagnosticado em estágio inicial, o câncer colorretal tem cura na maioria dos casos. O problema é que os sintomas iniciais são discretos.
Mudança no hábito intestinal, sangue nas fezes e perda de peso sem explicação raramente provocam uma consulta imediata. Muitas pessoas só chegam ao médico quando o quadro já avançou.
Projeções da Fundação do Câncer, com base em dados do INCA e do IBGE, indicam que os casos de câncer colorretal no Brasil devem crescer 21% entre 2030 e 2040. As regiões Centro-Oeste e Norte devem registrar os maiores aumentos.
O Nordeste, com menor concentração histórica da doença, não está isento dessa curva e segue sem um protocolo específico de rastreamento populacional que mude esse panorama.
O que o paciente ignora e o que os dados mostram
A gastroenterite aguda é outra condição que revela a fragilidade do acesso precoce ao cuidado digestivo. Segundo pesquisa publicada no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences com dados do DATASUS, foram notificadas mais de 426 mil internações por gastroenterite entre 2019 e 2024 no Brasil, com o Nordeste respondendo pelo maior índice regional. A maioria das internações seria evitável com orientação e tratamento ambulatorial adequado.
O refluxo gastroesofágico, por sua vez, afeta em torno de 11,8% da população de grandes cidades brasileiras ao longo do ano, conforme inquérito populacional registrado em literatura médica nacional.
Uma parte dessas pessoas nunca recebeu diagnóstico formal e outra parte convive com o sintoma sem saber que, mantido por anos, pode causar lesões no esôfago com potencial de evoluir para condições mais graves.
O padrão se repete com as pedras na vesícula. Nem todo paciente com cálculo biliar sente dor, mas quando a pedra provoca inflamação ou obstrução, o quadro exige atenção imediata.
Em 2019, antes da pandemia, o SUS registrou mais de 225 mil colecistectomias. Uma fração relevante dessas cirurgias poderia ter sido conduzida de forma programada, com menos risco, se a avaliação tivesse ocorrido antes da crise.
Quando buscar avaliação cirúrgica e com quem conversar
Reconhecer os sinais de alerta é o primeiro passo. Procurar o especialista certo é igualmente importante. Muitas condições digestivas têm tratamento clínico eficaz quando identificadas no início. Outras exigem intervenção cirúrgica programada que, feita antes de uma complicação, tem resultados muito melhores do que a cirurgia de emergência.
Alguns sinais que justificam consulta imediata: azia ou queimação que volta várias vezes por semana; dor forte no alto do abdômen, sobretudo após refeições gordurosas; mudança no hábito intestinal que dura mais de duas semanas; sangue nas fezes ou no vômito; perda de peso sem causa aparente.
Para qualquer um desses quadros, a avaliação com um cirurgião do aparelho digestivo permite definir se o caso exige acompanhamento clínico, exames específicos ou indicação cirúrgica, antes que a situação se agrave.
A distinção entre gastroenterologista clínico e cirurgião digestivo importa na prática. O gastroenterologista conduz o diagnóstico, prescreve medicamentos e solicita exames como endoscopia e colonoscopia.
O gastrocirurgião atua quando há necessidade de intervenção cirúrgica, seja ela eletiva ou de urgência. Em muitos casos, os dois trabalham juntos, especialmente no acompanhamento de doenças crônicas ou de tumores gastrointestinais.
Formação e experiência fazem diferença na cirurgia digestiva
Na hora de escolher um especialista, alguns critérios têm peso real no resultado do tratamento. Residência médica em cirurgia do aparelho digestivo, que é uma formação distinta da cirurgia geral, indica preparo específico para lidar com as complexidades do trato gastrointestinal.
Volume de cirurgias realizadas, experiência em técnicas minimamente invasivas como videolaparoscopia e cirurgia robótica, e vínculo com serviços de ensino e residência médica são indicadores que o paciente pode e deve considerar.
As técnicas minimamente invasivas mudaram o perfil de recuperação das cirurgias digestivas nas últimas décadas. Procedimentos que antes exigiam semanas de internação e meses de restrição, quando realizados por videolaparoscopia ou robótica por equipes treinadas, permitem alta hospitalar mais rápida e retorno precoce às atividades.
O ganho não é apenas de conforto: é de segurança e de menor exposição a complicações pós-operatórias.
Acompanhamento contínuo reduz risco de complicações graves
Para doenças digestivas crônicas, como doença de Crohn, retocolite ulcerativa, refluxo de repetição ou histórico de pólipos colorretais, o acompanhamento regular com um especialista tem impacto direto sobre a necessidade de cirurgia futura.
A Sociedade Brasileira de Coloproctologia aponta que o tratamento iniciado nos primeiros dois anos de sintomas reduz substancialmente o risco de o paciente precisar de intervenção cirúrgica.
Isso exige que o paciente tenha não apenas o diagnóstico correto, mas um médico do aparelho digestivo de referência, com quem possa retornar em consultas periódicas e ajustar o tratamento conforme a evolução do quadro.
A ausência desse vínculo, comum em regiões onde o acesso à atenção especializada é limitado, é um dos fatores que transformam condições manajáveis em emergências cirúrgicas.
Para a colonoscopia preventiva, as recomendações médicas atuais indicam início a partir dos 45 anos para pessoas sem fatores de risco, repetindo o exame a cada três anos.
Para quem tem histórico familiar de câncer colorretal ou doença inflamatória intestinal, o rastreamento deve começar antes e com intervalos menores. A indicação vale mesmo na ausência de sintomas, porque é justamente quando o exame funciona como prevenção real.
O sintoma existe para ser investigado, não tolerado
A cultura de tolerar sintomas digestivos como parte do cotidiano tem custo. Parte das mais de 95 mil internações por câncer colorretal registradas em 2022 no Brasil corresponde a casos que poderiam ter sido detectados em estágio inicial com exames preventivos realizados na época certa.
O mesmo raciocínio vale para a maioria das emergências cirúrgicas do abdômen: a porta de entrada geralmente existiu antes, e ficou sem resposta.
Azia que volta toda semana, dor abdominal que muda de intensidade conforme o que se come, alteração no ritmo intestinal que já dura mais de um mês. Nenhum desses sinais deve ser normalizado como rotina.
A investigação clínica, feita no tempo certo e com o especialista adequado, é o que define se o tratamento vai ser simples ou se o paciente vai chegar ao pronto-socorro sem outra escolha.



